Carnê de loja volta a crescer em 2026 e vira alternativa ao cartão de crédito caro

Com juros altos e limite do cartão comprometido, varejistas resgatam o crediário próprio para vender mais e driblar os bancos

Por: Pamela Gaudio em 08/01/2026
Tempo de Leitura: 3 minutos
carnê de loja

O carnê de loja, muito comum antes da popularização do cartão de crédito, está oficialmente de volta em 2026.

Grandes redes varejistas voltaram a apostar no crediário próprio como alternativa para consumidores que não conseguem mais crédito nos bancos, seja por limite estourado, renda informal ou restrições no CPF.

A volta do “carnezinho” acontece em um cenário de juros elevados, crédito mais restrito e inadimplência em alta, o que tem dificultado tanto o consumo quanto o crescimento do varejo.

Por que o carnê está voltando agora?

Nos últimos anos, o cartão de crédito dominou as compras parceladas no Brasil, especialmente entre 2015 e 2020, impulsionado pelas fintechs. Mas esse cenário mudou.

Hoje:

  • a taxa Selic está em 15% ao ano, no maior nível em duas décadas
  • muitos consumidores estão com todo o limite do cartão comprometido
  • os bancos ficaram mais rígidos na concessão de crédito
  • a inadimplência segue elevada

Segundo dados do Banco Central, 6,7% dos empréstimos livres estavam inadimplentes em outubro.

Já pesquisas da CNDL e do SPC Brasil mostram que quase 73 milhões de brasileiros estão negativados, o equivalente a 43,7% da população adulta.

Com menos crédito disponível, sobra pouco espaço para compras parceladas no cartão, especialmente de itens de maior valor, como eletrodomésticos, móveis e eletrônicos.

Varejistas retomam o crédito por conta própria

Diante desse cenário, redes como Casas Bahia, Magazine Luiza, Mercado Móveis e Lojas Torra decidiram fortalecer ou recriar o crediário próprio.

A lógica é simples:

  • o banco nega o crédito
  • a loja assume o risco
  • a venda acontece
  • o varejo ainda ganha com os juros do parcelamento

Carnê virou negócio financeiro

Outro ponto importante é que o crediário deixou de ser apenas um meio de pagamento. Para muitas varejistas, ele virou fonte relevante de receita financeira.

Consultores do setor explicam que, com margens comerciais cada vez mais apertadas, o lucro financeiro do crediário ganhou peso estratégico. Em alguns grupos, mais de 50% do resultado vem do crédito, e não da venda do produto em si.

Carnê agora é digital, com Pix e app

Apesar da nostalgia, o carnê que volta em 2026 não é mais o mesmo dos anos 1990.

Hoje ele é:

  • digital
  • integrado ao app da loja
  • pago majoritariamente via Pix
  • com análise de dados e histórico do cliente

Em algumas redes, mais de 80% das parcelas já são pagas por Pix, sem necessidade de ir à loja. Outras planejam lançar clubes de benefícios, cashback e programas de pontos exclusivos para quem compra no carnê.

Até famílias de renda mais alta estão usando carnê

Um dado curioso é que o carnê não está crescendo apenas entre consumidores de baixa renda.

Dados da Confederação Nacional do Comércio mostram que:

  • o uso do carnê cresceu mais entre famílias com renda acima de 10 salários mínimos
  • esse grupo tem maior percepção do custo dos juros do cartão

A explicação está nos números:

  • juros médios do carnê: cerca de 30% ao ano
  • juros do cartão de crédito: acima de 400% ao ano

Ou seja, para quem entende o custo do dinheiro, o carnê passou a ser uma alternativa mais racional do que parcelar no cartão.

Carnê é solução ou novo risco?

O retorno do carnê ajuda a destravar o consumo e amplia o acesso ao crédito, mas exige atenção do consumidor.

Apesar de ser mais barato que o cartão, ele:

  • ainda cobra juros
  • compromete renda por vários meses
  • pode virar problema se mal planejado

A recomendação continua sendo comparar taxas, prazos e impacto no orçamento antes de assumir qualquer parcelamento, seja no cartão, no carnê ou em outro tipo de crédito.